O que é realmente real? Aquilo que não é ilusão... bem, até poderia ser definido assim. Sentada na privada, enquanto realizo meu ritual biológico-holístico de trocas de energias, observo uma pequena aranha tecer uma teia delicadamente. Ela trabalha nos mínimos detalhes de uma renda tão fina que chega a ser transparente...
Ainda olhando para o pequeno aracnídeo, me pergunto: Por que tanta perfeição se ninguém irá ver? Se o objetivo é exatamente não aparecer e capturar pela surpresa? Contudo, continuo a admirar o seu trabalho, mesmo sabendo, ou até mesmo por isso, que ele tem um curto prazo de validade, pois, assim como as anteriores, D. aranha irá perder a sua residência - primorosamente enfeitada, diga-se - na próxima faxina.
A filosofia sobre a arquitetura aracnídea continua enquanto penso na organização do meu referencial teórico, o qual está milimetricamente catalogado por assunto, data e autor... um trabalho quase digno de D. aranha, digo quase, porque ainda existem masi algumas opções de organização... é... aqui, também, ninguém, além de mim, mexe... porque o trabalho? Ilusão, meus caros, Ilusão!!
Chego a conclusão de que, solitárias, eu e D. aranha, resolvemos nos apegar as pequenas coisas cotidianas, já que nossas casas/vidas estão organizadas para um habitante. No caso de D. aranha é questão de natureza, já no meu...
Refeita após o meu ritual de trocas, e com um spray aromático em mãos, abandono D. aranha ao seu trabalho solitário e dedico-me a mais divagações... A vida é uma questão do quanto você está aberto à realidade e quanto da sua realidade é uma ilusão, criada para gerar imagens sociais aceitáveis.
A mais bela moça, a "miss", poderia considerar seu kit de maquiagem semelhante em função à cartola do mágico de festas infantis... mero instrumento de ilusão... Por outro lado, o engenheiro olha para o prédio, nascido de seus sonhos, da mesma maneira que o diretor observa a estréia de seu espetáculo... ambos são ilusões... Ilusões, repito, a vida é um conjunto de ilusões. Algumas cruéis, inventadas apenas para justificar fraquezas, outras, mais densas, capazes de se corporificar, as chamadas idéias, sim, quem não conhece a ilusão humana de que pode voar? Santos Dummont, tornou possível o que antes era destinado apenas aqueles que possuíssem asas de cera, ou tivessem a sua disposição pensamentos felizes e um pouco de pó de pirlipimpim...ilusões infantis...
A ilusão é necessária, seja aliada a imaginação e a criatividade,impulsionando... Seja como vilão de um mundo virtual dominado por mentes binárias, um lastro de mentes fracas, cruel, mas presente. Platão acreditava que o homem não conseguiria aguentar o intenso brilho da realidade, sendo relegado ao destino de pobre observador das suas sombras projetadas nas paredes de sua caverna. Essa caverna seria nossa sociedade? Sua alma imortal? ou sua própria genialidade adormecida no escuro das suas próprias entranhas?
Como uma ilusionista, forjada no fogo do tempo e das eras, pergunto-me se D. aranha também se questionou sobre a natureza de suas ilusões... essas divagações nunca terão fim, apenas posso salientar que D. aranha não terá que se mudar...pelo menos dessa vez.
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