Que parte negra de mim fica crescente sorrindo cheia enquanto o resto mingua em busca de alguma coisa nova...

26 de jun. de 2007

A “comivelzinha”

São onze horas da noite e o único barulho existente é a cantilena monótona do ventilador lento. Observo as paredes do meu quarto, se é que este muquifo pode ser chamado de quarto, mas afinal, o que realmente é um quarto? Olho para as paredes descascadas, posso ver que embaixo da tinta vagabunda branca existe uma parede que já foi verde, o que demonstra que este quarto já teve gosto pior do que o meu... O chão, mais esburacado do que o meu bolso, mais parece ter sido atingido por uma enxurrada de balas de metralhadora. O teto... Meu Deus! Um dia isso ainda cai...
Perdido nos rumos dessa história melodramática, na qual sou o personagem principal, não presto atenção na maçaneta da porta a girar... Contudo, sou despertado pelo insistente latido do meu fiel vira-latas, que dorme embaixo da minha surrada cama de armar. O estranho ser, bizarro, me atrevo a dizer, entra encolhido e reticente. Engraçado...juro que tranquei a porta...maldito porre... devo ter bebido todas novamente...
Ah! A bizarra criatura, bom, ela foi entrando e imediatamente se desculpando. Queria a minha ajuda para encontrar o irmão desaparecido. Imaginem só!! Eu ajudando alguém, ainda mais uma figura tão esquisita quanto aquela...
Ela retirou o capuz do grosso casaco, e não pareceu tão esquisita... Bom, para encurtar o causo, a criatura... quer dizer, é melhor chamar pelo nome, já que por baixo daquele jaquetão cor de burro quando foge e calças masculinas, existia uma mulher, quer dizer... um arremedo de mulher, uma guria que não devia ter mais do que vinte e poucos anos, e que era até bem “comivelzinha”...“Ô velho tarado!!” Isso que vocês estão pensando, não é mesmo? Pois fiquem sabendo que não sou velho!! Quanto ao tarado...bom, essa parte eu não posso refutar.
Alma... esse era o nome da “comivelzinha”. Realmente, o seu rosto pálido, salpicado de sardas e possuidor de olhos castanhos, daquele castanho dos olhos dos cachorros, sabe? Castanhos olhos, e boca pequena, pequena e rosada, sem nenhuma maquiagem e mesmo assim bela...
Alma...alma penada, isso sim!! Muito bonita para ser real. É, isso... muito bonita para ser real. Ela sentou-se a minha frente, no duro e esburacado chão, cruzou as pernas em posição de índio e colocou suas delicadas e brancas mãos sobre o ventre. Contemplei seus olhos tristes e me peguei pensando besteiras, daquele tipo inconfessável para um homem, sabe? Tipo, casamento, filho, fidelidade...CRUZES!!!! Devia estar ficando louco mesmo. Isso sim, confirmava que ela não devia ser desse mundo..
“Me mandaram te procurar...” ela disse que alguém houvera dito o meu nome, filhas da puta!! Só podia ser alguém para quem eu estava devendo até as calças e que resolvera me aplicar essa! O problema é que eu devo para todo mundo, como saber quem foi o sem vergonha!?
Ela continuava ali, na mesma posição, me olhando, ansiosa... o que eu lhe diria? Que não sou um cavaleiro de armadura brilhante em montaria branca?! Que não passo de um bêbado, sem a mínima noção de conceitos morais?! Na verdade, nem sei o que significa a apalavra moral... moral, será que é a mesma das aulas de moral e cívica? Se for tanto pior... sempre rodei nessa matéria...
Ah...devem estar se perguntando a essas alturas “por que, em nome de Deus, essa criatura foge tanto do assunto!?!?!?”, é eu faço isso mesmo, não posso fazer nada, a culpa é da minha mãe, se drogava, sabe? Por isso que eu sou assim, meio retardado... e olha que dizem que essa é a melhor das minhas metades, he, he, risada amarela, né? Deixa pra lá...
Meus pensamentos vagueiam enquanto olho para a “comivelzinha”, olho, mas não vejo realmente, estou perdido no tempo e no espaço, entre a loucura e a realidade... Ela diz coisas que não escuto, fui transportado para outra dimensão, vejo seus lábios rosados se mexerem, mas não entendo o que dizem.
Ela me mostra dinheiro, gesticula sem parar, de repente, para, olha fixamente para mim e desata a chorar, um choro quase infantil, daqueles que irritam, sabe? Acordo do meu estado suspenso e a sacudo pelos ombros, ela, apavorada, me abraça e soluça intermináveis frases de agradecimento. Que parte eu perdi?! Por que ela está me agradecendo? Foi ela quem me abraçou, eu só queria que ela parasse com aquele choro irritante.
Ela começa a desfilar diante dos meus olhos incontáveis fotos de família, por algum motivo ela acredita que eu concordei em ajudar... mas sinceramente... eu não me lembro de ter dito nada a respeito. Admito!! Estou confuso...
A “comivelzinha”... o que? Termos impróprios para se referir... para se referir a uma dama!?!?! Ô, meu amigo, de que planeta tu veio, ô criatura?!?! Certo, certo, A Alma, “ tá melhor assim??” Alma fica alegre, rodopia, e cai sentada ao meu lado. Sinto o seu perfume pela primeira vez e penso: FUDEU!!! Tô ferrado, que cheiro tem a comi.vel...quer dizer, a referida dama...
Juro, ela até poderia ser uma alma penada que veio me atentar, mas que tentação mais tentadora! Tá!!! Eu sei!! Toda tentação é tentadora, ou então não seria tentação... Mas esses registros são meus! A memória é minha, e se tu não gostou do meu estilo literário, vai ..... é, esse lugar mesmo que tu tá pensando!!!
Bom, agora que nos entendemos... Como eu ia dizendo, ANTES da interrupção... Ela cheirava muito bem, era uma mistura de álcool etílico e esparadrapo novo, sabe? Ela parecia ter saído do hospital, frágil, mas de uma maneira sexy. Ela era a mulher perfeita para aquelas confissões horríveis que fiz a pouco. Me perdi nesses pensamentos e nem notei a sua figura esguia deixar meu quarto. Quando percebi, estava só, ou quase, já que minha companhia constante estava lá, foucinho apoiado no meu pé e a pata dianteira coçando a orelha, exatamente como fazia todas as noites.
Não havia nenhum indicio de que ela estivera lá. Será que eu bebera todas de novo? Foi imaginação minha? Será que Alma era real? Ainda pensando nisso, focalizei meus dedos dos pés. Estavam gelados e roxos, acho que senti frio...
Enquanto batia os pés, intercaladamente, para esquentar, vi grudado, na sola da havaiana, uma foto três por quatro. Era de um rapaz, ele devia ter uns dezoito anos, era muito branco e tinha olhos castanhos, castanhos, que nem cachorro, sabe? Atrás da foto estava escrito com uma letra redonda e feminina: “Com amor do teu eterno amante, Almiro”
Eterno amante... Almiro... Alma... que família sem imaginação pra nome de filho!! Deviam ser gêmeos, porque ele era a cara dela, só que de cabelo curto...
Peguei minha toca, meu chinelo havaiana, a foto e meu cachorro, o que mais me esperava lá fora? Da porta, dei uma última olhada no meu canto e pensei:
“ Merda! Um dia essa droga de teto ainda cai!”
FIM

23 de jun. de 2007

idéias soltas

Todo o ser humano gosta de uma boa ilusão, seja no papel de iludido ou de ilusionista, eu à propósito, me identifico com a segunda opção, assim sendo resolvi tratar nessa messiva idéias sobre tal tópico.
A escrita é um exercício de repetição, assim como o estímulo da imaginação, pois aí está o cerne da questão que me proponho a divagar...
Crescida em uma sociedade onde as palavras podem ferir ou curar, especializei-me nas duas artes. Facilmente firo com meu vocabulário, assim como não há esforço em consolar com o meu repertório de palavras corretas. Muitas vezes as palavras são sentidas no âmago, outras porém, não passam de mera formalidade. Cuidadosamente me dirijo ao meu interlocutor, pensando e repensando sobre todas as conseqüências das minhas palavras, caso elas precisem ser duras, mas a pessoa não está preparada, guardo todas elas dentro do meu bem cuidado dicionário...
Vagas, dissonantes, talvez. Mas lembrem-se, eu os avisei desde o inicio, essas são divagações... não ouso, ou pretendo, definir novos paradigmas ou transpor tabus, apenas faço um exercício de escrita e imaginação sobre o que sou, uma aprendiz ilusionista que engatinha nas artes da divagação e da convivência consigo mesma.