Que parte negra de mim fica crescente sorrindo cheia enquanto o resto mingua em busca de alguma coisa nova...

5 de fev. de 2011

ALMA...


Ah! Que calor, nem meu pobre ventilador consegue encontrar algum vento fresco disposto a suavizar meu martírio. Meu cusco, cujo nariz sempre foi gelado, parece estar com uns 40 pelo menos, sua língua bambeia de um lado para o outro e ele nem ao menos tira a cabeça do chão... Se não fosse pela língua se mexendo, eu diria que ele tinha morrido, afinal, feder ele sempre fedeu...

Olho em volta, as paredes estão cada vez piores, eu realmente me surpreendo deste lugar ainda não ter ruído de vez. Me perco nesses pensamentos e nela... Alma... Por onde deve andar minha adorada criatura alva? Por onde deve estar espalhando aquele seu perfume de esparadrapo novo...

Já faz um ano desde que ela entrou por aquela porta, um ano que descobri toda a verdade... Ela sumiu... E o velho babão aqui continua tendo sonhos obscenos com casas de cerquinha branca e crianças correndo na grama verde!

Alma, alma penada, sim senhor! Sabia que a comivelzinha era chave de cadeia, mas fazer o que... Olhem para mim... O que eu tenho a perder? Passei um mês a feijão para procurar o irmão perdido... Suei as bicas nessa soleira de Meu Deus, quase matei o cusco de fome... Nos dois sentidos, fome dele e fome minha! Mas por sorte ele come feijão...

Ah! Olha só, já comecei a viajar de novo. Desculpa aí... É que sou assim mesmo, culpa da minha mãe... Mas isso eu já contei né?! Alma... Por onde ela deve andar?

Opa! Espera... A língua parou... acho que o cusco morreu de vez!

Toco a minha havaiana no bicho... Alarme falso! A língua volta a mexer depois de um rosnado, que provavelmente me mandou para bem mais longe do que a ponte de Paris!

Alma... Por que eu sempre volto nesse assunto? Não é isso que estão se perguntando? Pois bem... Eu também estou me perguntando à mesma coisa.

Que beleza! Não tinha força nem para mexer a língua, agora, para mastigar meu havaiana órfão de pai e mãe, o filho de uma cadela encontra força!

Após um rápido confronto com o cusco para mostrar quem manda, voltei a me esparramar na cama com a mão mordida e sem chinelo... Aprendi direitinho quem é que manda...

Enquanto observo os pobres pedaços de borracha preta e branca ser aniquilados pelo meu vira-lata com complexo de pit-bull, volto ao assunto... Por onde andará minha pequena Alma... “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.” Não tenho a menos noção de quem foi o cara que falou isso... Mas com certeza ele não conheceu a minha Alma.

Meus olhos começam a pesar... Caramba! O calor está de matar... Uma mulher com nariz de águia inchado, sabe, tipo um dodô de desenho animado, se materializa na minha frente...

Mas será o pé do Benedito! Eu nunca mais vou trancar aquela porcaria de porta, não?? A mulher me olha com uma cara de nojo, ela tem aquele nariz que disse, de dodô de desenho animado, os cabelos puxados num coque horroroso, cuja repartição dá inveja em muita pista de fórmula 1! Ela é alta e magra, e pelo que me parece o que tem de grana tem de sem noção.

Suas roupas são caras, isso eu posso notar... O sapato com bico de matar baratas no canto é caro... E eu chorando a minha recém-falecida havaiana... Ela usa um perfume de melancia que me faz agradecer não ter tido grana para comprar comida...

Ela fala estranho, com todos os erres e esses, concordando os verbos e sujeitos... ou seja, parece ser fina, com o perdão do trocadilho...magra... fina... Ah, deixa para lá... nunca fui bom com piadas mesmo...

Voltando a versão nacional de uma governanta alemã que fitava o meu cusco com cara de nojo... Ela começa a falar sobre a sua preciosa, alguém que ela quer muito reencontrar, ela diz que me indicaram... Puta que pariu! Será que esses caras não vão parar de me botar em furadas nunca?! Já não chegou a história da Alma?! Alma... Ela tinha sido uma intrusa bem mais agradável, tinha um cheiro bom... tipo de hospital, sabe, mas acho que isso eu já contei...

Alma, por onde será que ela anda... Ah, a mulher... bom, do mesmo jeito que entrou, saiu. E se não fosse pelo punhado de verdinhas, muito bem vindas por sinal, eu nem acreditaria que ela esteve aqui.

Observo meu cusco terminar com o que ainda existia da minha havaiana e me jogo para trás na cama, óbvio que bato com a cabeça na parede, que só de birra me joga um bloco de reboco na testa. Cara, juro ... um dia essa casa cai. Sem muitas alternativas, pego um boné surrado, minha chave e saio.

Na porta olho de volta... Ah, cretino! Agora que destruiu meu chinelo, voltou a dormir! Ou será que morreu? Atiro as minhas chaves no cusco para ter certeza... Outro alarme falso... bom, olho para as chaves embaixo das patas sujas e penso... É de ferro né... E afinal quem iria querer roubar algo aqui? Eu prefiro ainda ter uma mão que funcione.

Com uma fungada para fingir algum orgulho, fecho a porta e penso... Cara, por onde andará a minha alma?